
Nesta fotografia, eu devia ter 23 anos. Ela está na minha mesa de cabeceira desde essa altura. Adoro-a. Foi tirada em Monte Gordo, pelo meu pai. Tenho outras, poucas, que cá em casa não somos de fotografias, mas esta fotografia, acreditem ou não, é o meu bem mais valioso. Na altura era magrinha, gira, nova e vestia-me como uma senhora. Mas não é isso que me importa nela, o que realmente importa é que eu ainda era feliz nessa altura, estupidamente feliz, como em mais nenhum dia da minha vida, a partir da morte do meu pai, fui. Naquela altura éramos 3. E os 3 fomos rídiculamente felizes, sem sabermos. Tínhamos tudo, mas acima de todas as coisas, tínhamo-nos uns aos outros. E isso, era tudo. As nossas vidas couberam sempre perfeitamente nas vidas uns dos outros. Fomos um trio, indestructível. Agora somos o que está nesta foto. Duas mulheres que se adoram, mas completamente sós. A outra parte de nós, partiu há muitos anos. Mas não é por isso que adoro menos esta foto. É que lá ainda tenho o sorriso, aliás, temos, eu e a minha mãe, um sorriso que nunca mais tivemos. E tínhamos o olhar, aquele olhar de quem adora a vida e está pronta para quase, quase tudo. É a única parte do meu passado que poderão conhecer.